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Somos fascinados por ciência! Não teria melhor forma de descrever nosso entusiamo por pesquisa do que essa. Na mesma medida, percebemos que a distância entre a academia e a sociedade ainda existe e nossa função com este espaço é servir tal como uma ponte entre todos os envolvidos!

Tivemos início em 2010 na popularização da ciência e mantemos esse espaço com o trabalho de três professores: J.Landeira-Fernandez, Elie Cheniauxe Luis Anunciação.
Mês: 01 , 02 , 03040506 , 07 , 08 , 09 , 10 , 11 , 12 

Agosto / 2015 (Subir)

Maria Luisa Scherer

Todo mundo, alguma vez na vida, já escutou falar sobre a série “Lie To Me”. Ela retrata o Dr. Carl Lightman como sendo um verdadeiro detector de mentiras, que através das pequenas e sutis pistas faciais diz quem mente e quem fala a verdade.

Isso poderia acontecer de verdade?  Respondo: Sim!

De acordo com o estudo “Reading between the Lies: Identifying Concealed and Falsified Emotions in Universal Facial Expressions” nossas expressões faciais nos entregam.

Em discursos mentirosos, são percebidos micro sorrisos, olhos levemente arregalados e movimentos de sobrancelha que normalmente passariam despercebidos. Mas estudiosos e o Dr. Lightman continuam a pegar os mentirosos.
É importante lembrar que “Lie To Me” é só uma série e que esse campo de estudo ainda é incerto. Até porque o mundo está cheio de gente que conta as famosas “mentirinhas brancas”.

Quem tem o canal da Universal ou, minimamente, insônia para assistir TV às duas da manhã, já assistiu “House”. É a série sobre um médico irreverente, porém brilhante. Um dos bordões do Dr. House é “everybody lies” ou “todo mundo mente”. Verdade seja dita: sim, todo mundo mente. Mas a pergunta a ser feita é: Por quê?

Muita gente mente por motivos banais, mas pessoas como Michael White têm segredos obscuros a esconder.

Ele fez uma aparição na TV aberta soluçando de tanto chorar, pedindo ajuda para encontrarem sua mulher que estava desaparecida há tempos. A polícia estava ao seu lado nessa busca e seu discurso foi tão comovente que muitas pessoas ajudaram também. Mas, três dias depois, ele apareceu transbordando de ódio e raiva, reclamando que a policia não estava fazendo as buscas como devia. Então, ele montou um grupo de voluntários e os levou diretamente ao lugar onde o corpo de sua mulher estava. Ele foi preso na hora. Ele estava mentindo o tempo todo! Foi ele quem a matou e desapareceu com o corpo.

Existem seis expressões faciais básicas (Isto é baseado na teoria de Paul Ekman) medo, nojo, alegria, surpresa, tristeza e raiva. Ser capaz de reconhecê-las e distingui-las é crucial. Estudiosos como, por exemplo, Stephen Porter, detectaram resquícios de um sorriso no rosto de Michael enquanto ele falava sobre sua mulher. Havia também raiva e nojo em seu rosto, expressões que o povo não foi capaz de reconhecer.

Existem muitos estudos acerca do assunto, mas enquanto existirem Michael Whites pelo mundo, devemos nos perguntar até onde pode ir uma mentira, até onde as pessoas vão para esconder algo da gente. Mas também podemos ficar calmos porque mentiras têm prazo de validade. Segundo Porter, psicólogo forense, não há mentira que dure para sempre.
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Referências:

http://www.sciencedaily.com/releases/2008/04/080422200952.htm

https://people.ok.ubc.ca/stporter/Publications_files/Reading%20Between%20the%20Lies.pdf

http://study.com/academy/lesson/ekmans-six-basic-emotions-list-definitions-quiz.html

Este texto é uma iniciativa de docência da Prof.ª Dr.ª Heloisa Veiga, que utilizou este esse recurso para estimular seus alunos a produzirem um artigo acessível para nosso site.
 

Agosto / 2015 (Subir)

Bruna Chagas - Veja o Blog da acadêmica.

Cérebro de paciente em estado vegetativo reage como o de uma pessoal normal, diz estudo.

O estado vegetativo é um tipo de coma em que a pessoa acorda e dorme, mas não mostra sinal de consciência, ou seja, ela não responde a nenhum tipo de estímulo externo. Sim, ela fica de olhos abertos, mas você pode cutucar, chamar, gritar, que ela não vai responder.

Entretanto, um estudo de 2006 mostrou que o cérebro de uma paciente não era tão indiferente a estímulos como imaginaríamos que fosse; pelo contrário, comparado ao cérebro de uma pessoa em seu pleno estado de consciência, as áreas ativadas foram bem parecidas. Para realizar o estudo, Adrian M. Owen, primeiro autor do estudo, usou uma paciente de 23 anos que tinha sofrido um acidente de carro e teve um sério traumatismo cerebral. Esse traumatismo fez com que ela entrasse em estado vegetativo. Ela dormia e acordava normalmente, mas continuava sem responder. Quando fizeram o estudo, ela já estava nesse estado há cinco meses! Para ver quais áreas eram ativadas enquanto a paciente aparentemente não respondia, eles a colocaram em uma ressonância magnética funcional (fMRI).

Esse exame mostra quais áreas do cérebro estão relacionadas a uma determinada tarefa, de acordo com o deslocamento sanguíneo. Ou seja, a área com maior concentração de sangue é a responsável pela tarefa executada.

O estudo foi feito da seguinte forma: colocaram a paciente, que estava em estado vegetativo, dentro da ressonância e pediram para ela executar algumas tarefas:
• Se imaginar jogando tênis
• Se imaginar andando pela sua casa

Além disso, viram quais áreas eram ativadas quando ela ouvia frases. A frase usada foi:

• “Tem leite e açúcar no café dele”

Assim, eles poderiam ver se o cérebro estava indiferente aos estímulos tanto quanto ela.

Para comparar os resultados, fizeram a mesma coisa com uma pessoa normal (hígida) e compararam as áreas afetadas.

Eles obtiveram os seguintes resultados:

Para a surpresa dos médicos, e também a nossa, as mesmas áreas foram ativadas, tanto na paciente, quanto no grupo de pessoas normais (ou seja, sem lesão). Isso mostra que, apesar de ter os critérios para ter sido diagnosticada em estado vegetativo, ela possuía a capacidade de entender comandos falados e responder a eles com atividade cerebral.

Além disso, sua decisão de cooperar, imaginando o que foi pedido, mostra um claro ato de intencionalidade, o que, segundo o autor, confirma, sem dúvidas, que ela estava consciente dela mesma e do que acontecia à sua volta. Apesar de esse artigo ser um pouco antigo, o tema é bastante atual.

Novas pesquisas semelhantes vêm sendo feitas, a maioria chegando aos mesmos resultados. Claro que os resultados dependem muito do nível de consciência do paciente; se for um coma muito profundo, pode acontecer de não ter atividade alguma. Dentre os artigos mais recentes, há um bem interessante onde um homem que estava em coma há 16 anos (!) demonstrou ter atividade cerebral enquanto assistia a um filme de Hitchcock

Para quem tiver interesse, leia mais aqui. Esse tema de consciência é bastante complexo e envolve diversas questões éticas. Por exemplo, se o cérebro da paciente está respondendo, os médicos devem deixar os aparelhos ligados durante anos até que ela volte, ou devem desligar para dar vaga à outra pessoa? Bom, sobre a paciente, não há relatos de que ela voltou para dizer se lembra de ter se imaginado jogando tênis ou do cara que toma café com leite e açúcar.

Fonte: http://www.coma.ulg.ac.be/papers/vs/VS_science2006.pdf

Este texto é uma iniciativa de docência da Prof.ª Dr.ª Heloisa Veiga, que utilizou este esse recurso para estimular seus alunos a produzirem um artigo acessível para nosso site.

A autora deste artigo resolveu criar um Blog para divulgar ainda mais informações e pesquisas em nossa área. Para conferir, basta clicar aqui.
 
Junho / 2015 (Subir)

Profa. Sarah Cassimiro Marques (Faculdades Alves Faria) - Veja o Lattes da pesquisadora.


Você que já sentiu aquele friozinho na barriga, mãos suadas, pernas bambas e coração acelerado ao se encontrar com alguém?  Essa mesma pessoa não sai dos seus sonhos? Você literalmente dorme, levanta, toma banho, come, trabalha, dirige e estuda pensando nela? Parabéns...você está amando!

A Neurociência já está estudando sobre o assunto e já é capaz de afirmar o amor não está no coração e sim, no encéfalo.
Esse sentimento, por vezes nomeado de amor ou até mesmo paixão, é um estado afetivo completamente intenso que domina a atividade psíquica como um todo, sendo capaz de dirigir a atenção e o interesse do indivíduo em uma única direção, inibindo os demais interesses. Pesquisas relatam duas fases do amor romântico: atração e apego. O primeiro ocorre logo no início quando há pensamento assíduo em relação à pessoa desejada. Tal frequência leva a uma fixação no ser amado e em suas características. Emparelhadas a tais comportamentos estão a maximização ou exclusão de emoções como entusiasmo, medo, incerteza, timidez, esperança... um verdadeiro alvoroço de emoções acompanhadas de reações fisiológicas. Pesquisas indicam que a substancia química envolvida, feniletilamina, está presente em toda essa fase de atração que dura cerca de 18 meses a três anos, pois os neurônios do sistema límbico habituam-se a essas substancia.

Já a segunda fase, o apego, está relacionada com sentimentos de calma, paz, segurança e conforto. Nessa fase há aumento da produção de endorfinas, ocitocina e vasopressina.  Esses dois últimos são hormônios envolvidos no nascimento de uma criança e podem desempenhar um papel importante na formação de apego. Quando os pais começam a cuidar do bebê, também iniciam uma fase no seu relacionamento em que nutrem e promovem o apego recíproco. Além disso, através de técnicas de neuroimagem funcional, os neurocientistas Semir Zeki ,e Andreas Bartels, do University College London fizeram um experimento mostrando as áreas cerebrais ativadas pela visão de fotos da pessoa amada, por filhos e aquelas ativadas em ambas as condições. Além desses hormônios, ocitocina e vasopressina, as áreas da paixão estão envolvidas com o neurotransmissor dopamina.
Esse neurotransmissor é liberado em situações de prazer e está relacionado com o sistema de recompensa cerebral, composto por diversas estruturas anatômicas (área tegmentar ventral, núcleos accumbens, córtex pre´-frontal) ligadas aos mecanismos de recompensa que regulam os comportamentos motivados. O prazer é gerado especificamente por sistemas neurais dedicados a recompensar o próprio cérebro com sensações agradáveis quando o objetivo de suas ações é alcançado, ou ele é surpreendido por alguma novidade interessante. Comportamentos e substâncias que ativam o sistema de recompensa fazem o cérebro passar a associar a causa da ativação à sensação de bem-estar e prazer criada em seguida pelo corpo. Assim, a imagem, o cheiro, o tipo de roupa, a voz da pessoa que provoca prazer são associados com emoções positivas e vão relembrar tal pessoa assim que forem detectados no ambiente, mesmo na ausência do indivíduo.

Tanto no amor fraterno quanto no direcionado ao parceiro, pode-se perceber a vantagem evolutiva de tais mecanismos neurais na perpetuação da espécie. Emoções e sentimentos que promovem a aproximação e manutenção entre machos e fêmeas, assim como deles com os filhos servem para acasalamento, procriação e possibilitam maiores chances de sobrevivência da prole. Porém, alguns pesquisadores afirmam que há uma terceira fase do amor: a separação. Nem todos os casais passam por essa fase, mas ela mostra-se cada vez mais comum.
E o sexo? Muitas outras pesquisas relatam uma série de substancias relacionadas ao desejo e comportamento sexual, mas isso é para outro momento. Afinal, o fantástico de Neurociências é sempre ficarmos com um gostinho de quero mais..
 

Maio / 2015 (Subir)

Prof. Dr. Michael Luiz (UERJ & GliaNews) - Veja o Lattes do pesquisador.

Coisas que você não sabia sobre seu cérebro? Ele vai além dos neurônios!

Quando falamos no encéfalo (mais popularmente conhecido como cérebro), logo pensamos em neurônios. Afinal, quem não já pensou ou disse após grandes períodos de estudos ou de reflexões expressões como: meus neurônios estão doendo.Pois bem, quando usamos o cérebro, tem muito mais células trabalhando além dos neurônios. Elas são conhecidas como as células da glia e talvez até fiquem remoendo lá dentro das nossas cabeças pela indiferença com que as tratamos. Vistas inicalmente em 1824, essas células já foram consideradas como somente preenchedoras de espaços vazios, células acessórias dos neurônios, e hoje, com o avanço das técnicas de pesquisa (recombinação genética, bloqueio seletivo de proteínas, trasnfecção viral), sabemos que a relação glia-neurônio está mais para um dueto do que um show de um único astro.

Mas quais células fazem parte da glia? A lista é grande, e cada uma delas parece exerce várias funções dentro do cérebro. A divisão entretanto ainda é um pouco confusa para o grande público, mas sem entrar nesse mérito de classificação, podemos citar as mais estudadas: astrócitos, microglia, oligodendrócitos, tanicitos, células NG2, glia radial, glia de bergmann, glia de Müller, células de Schwann.

Várias pesquisas recentes vem mostrando a participação delas em diversas fuções cognitivas e comportamentais que antes eram tidas como pertencentes somente a atividade neuronal. A aquisição de novos conhecimentos e a formação da memória por exemplo, estam diretamente ligadas a formação de novas sinapses, o que por sua vez é diretamente regulada e influenciada pelas células da glia. De forma bem resumida, enquanto os astrócitos liberam substâncias que estimulam a formação de novas sinapses e a sobreviência das mesmas, as células da microglia eliminam as sinapses que não são necessárias. Além disso, também já foi observado que as células da microglia são capazes de reforçar as sinapses sem que os neurônios sejam ativados e estudos também mostram que as células NG2 são capazes de modular as sinapses. E quando estamos com fome? Um recente trabalho mostrou que os astrócitos são capazes de responder de forma independente a váriação de glicose, e mudar o comportamento alimentar do organismo.

Outros trabalhos mostram o envolvimento também da microglia e um grande número de pesquisas relatam o envolvimento dos tanicitos tanto no controle do metabolimo energético, como na regulação de funções sexuais. Com relação a fome ainda, se discute que a obesidade, além da participação dos fatores endócrinos, seja desencadeada pela impossibilidade da formação de novos neurônios numa região específica no encéfalo à partir dos tanicitos por causa de fatores inflamatórios liberados possívelmente por células da microglia. Há quem diga também que esses novos neurônios possam ser originados não somente pelos tanicitos, mas também pelas células NG2. Falando nas células NG2, quando o assunto se trata de novidades, elas estão na frente. Tidas por muito tempo como progenitoras de oligodendrócitos, essas células parecem ter propriedades muito semelhantes com as células-tronco, podendo dar origem a neurônios e outros tipos de células da glia, mas esses achados são tão recentes no mundo da ciência, que os estudos precisam ainda de um tempo para serem corroborados por outras técnicas e outros grupos de pesquisa. Outra área de atuação das células da glia esta ligada a gliotransmissão.


Por muito tempo, considerou que somente neurônios trocavam informações mediante a liberação de neurotransmissores. Hoje sabemos que nesse bate-papo celular, as células da glia também dialogam liberando substâncias chamadas gliotransmissores, capazes de afetar atividade do cérebro. Quando vamos para a parte das doenças, a lista de estudos com células da glia só cresce. Temos achados mostrando a participação dos astrócitos até como reservatórios do vírus HIV no sistema nervoso central. Tanto doenças como Alzheimer e Parkinson parecem ter um compente de inflação diretamente ligado com a atividade da microglia e dos astrócitos. Alterações na função dos oligodendrócitos parecem estar bem ligadas com o surgimento da esquizofrenia. A epilepsia ao que tudo indica seria decorrente de alterações na função dos astrócitos, assim como a depressão. A obesidade como já mencionada anteriormente, estaria implicada também com uma falha na formação de novos neurônios a partir de tanicitos, ou talvez de células NG2.

Vários tumores no cérebro são originados pela proliferação excessiva de astrócitos ou de células NG2. O conhecimento sobre essas células é tanto, que seria impossível descrever todo aqui, mas aproveito para ressaltar pontos muito importantes das células da glia: alta plasticidade, capacidade de proliferação maior que os neurônios, atuação em diversas funções. É importante também lembrar que dentro do sistema nervoso, tanto a glia como os neurônios precisavam funcionar em harmonia para que as funções cerebrais estejam em ordem, não se podendo falar qual destas células é a mais importante, e possívelmente nossa forma de visão do cerebro mude drásticamente no futuro. Mais informações sobre as células da glia estão disponíveis no site GliaNews, assim como pesquisas recentes, eventos e entrevistas.
 
Onde saber mais?

Entrevista Drª Penha Cristina
https://www.youtube.com/watch?v=GQCCs8BfqHk

The Importance of Glia in Dealing with Stress.
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25455071

Glia: dos velhos conceitos às novas funções de hoje e as que ainda virão. http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40142013000100006&script=sci_arttext

Selective Activation of Microglia Facilitates Synaptic Strength.
http://www.jneurosci.org/content/35/11/4552.full.pdf+html

Hypothalamic tanycytes: potential roles in the control of feeding and energy balance
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3605593/

Astrocytes Control Food Intake by Inhibiting AGRP Neuron Activity via Adenosine A1 Receptors http://www.cell.com/cell-reports/pdf/S2211-1247%2815%2900377-0.pdf

Cell-to-cell contact facilitates HIV transmission from lymphocytes to astrocytes via CXCR4. http://journals.lww.com/aidsonline/Abstract/2015/04240/Cell_to_cell_contact_facilitates_HIV_transmission.1.aspx

Myelin, myelin-related disorders, and psychosis.
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25449713

Gliomas and the vascular fragility of the blood brain barrier
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25565956

Abril / 2015 (Subir)

Profª Drª Heloisa Alves (PUC-Rio & INTO) - Veja o Lattes da pesquisadora e entre em contato caso haja dúvidas!

Porquase três décadas pesquisadores têm buscado compreender melhor os fatores que diferenciam atletas de alto rendimento (considerados experts), de novatos e não-atletas. Hoje sabemos que a atividade física altera a estrutura e o funcionamento do cérebro. No entanto, ainda não está claro como o treinamento esportivo em longo prazo afeta a cognição dos atletas. A cognição é o processo através do qual nós adquirimos conhecimento; ela envolve habilidades como percepção, atenção, memória, raciocínio, imaginação e linguagem.

Ao longo dos últimos 15 anos, o voleibol brasileiro dominou o mundo. O voleibol é uma modalidade esportiva com uma grande demanda cognitiva. É um esporte que exige deslocamentos sincronizados entre os membros de uma mesma equipe, tanto com a posse quanto sem a posse da bola, no sentido de atacar ou se defender, respectivamente. Além disso, requer dos atletas uma habilidade elevada no trato com a bola, através de diferentes fundamentos (saque, defesa, levantamento, manchete, bloqueio e ataque). Ao longo de uma partida, os jogadores precisam prever as ações de jogo que vão evoluindo e se antecipar para aplicar a técnica adequada. Isto implica na implementação de soluções cognitivas imediatas e precisas para obter êxito em cada etapa do jogo.

Mas, afinal, o que medalhistas olímpicos têm de diferente? O que acontece com o cérebro de um atleta de alto rendimento?

Com esta pergunta em mente, os pesquisadores Heloisa Alves, Victor Cossich e José Inácio Salles (PNeuro/INTO), em parceria com a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) e com a Universidade de Illinois nos EUA, visitaram o Centro de Desenvolvimento de Voleibol (CDV) em Saquarema em 2008, alguns meses antes das Olimpíadas de Beijing. Lá, eles avaliaram 87 jogadores profissionais de voleibol, de 6 seleções diferentes (masculina e feminina, de base e adulta). Com o auxílio de computadores e software especializado, os pesquisadores avaliaram o funcionamento cognitivo dos atletas através de testes de atenção, memória e flexibilidade cognitiva.
Eles descobriram que os atletas eram capazes de inibir seu comportamento, ou seja, parar rapidamente uma ação quando precisavam, o que é fundamental no esporte e na vida diária. Eles também eram capazes de captar informações no ambiente e alternar entre tarefas de forma mais precisa e rápida do que não-atletas.
Outro resultado interessante foi que no grupo de atletas, não houve diferença de desempenho entre os homens e as mulheres. Entretanto, no grupo de não-atletas, o desempenho dos homens foi bem melhor do que o das mulheres. Ou seja, parece que o esporte iguala os gêneros em termos do desempenho mental. Em outras palavras, no esporte de alto rendimento (pelo menos no voleibol), parece não haver diferença entre o cérebro de uma mulher e o cérebro de um homem.

Mas uma questão crucial permanece: atletas são superiores por causa do treinamento ou por causa de alguma vantagem genética? É inato ou aprendido? Provavelmente um pouco de cada coisa. Novas pesquisas precisam ser desenvolvidas no futuro para que se chegue a uma conclusão definitiva.

Os resultados desta pesquisa foram divulgados em diversos blogs no exterior e publicados na revista Frontiers of Movement Science and Sport Psychology em 2013.
 
Onde saber mais?

http://blog.80percentmental.com/2013/03/thinking-faster-wins-olympic-medals-for.html#.VS1MO_nF9HU http://news.illinois.edu/news/13/0318athlete_cognition_ArtKramer.html http://www.axonpotential.com/testing-cognitive-skills-in-brazils-dominant-sport-volleyball/
Scoville WB, Milner B: Loss of recent memory after bilateral hippocampal lesions. J Neurol Neurosurg Psychiatry 1957; 20:11-21. Disponível em <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/13406589



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